Para fundamentar suas idéias os autores resgatam a formulação pós-moderna de crise e, por conseguinte, de ruptura com os paradigmas da modernidade. Entre estes paradigmas liquefeitos em meio à sociedade pós-moderna, estaria o Estado e suas instituições clássicas. Bem como o conceito de soberania deste sobre um povo ou nação, definindo limites territoriais, físicos ou até metafísicos.
Dessa forma, para compreender a crise da soberania é necessário, à priori, constituir alguns passos – longe de serem definitivos – sobre a construção do Império em meio a esta crise de soberania “limitada” do Estado-nação. Se, nos tempos atuais - “pós-modernos”, nos termos autorais - o centro da economia política e de toda articulação de poder em torno desta não pode ser mais localizada, como na lógica do imperialismo clássico do Estado-nação, e tem nos organismos internais sua expressão máxima. Se as decisões econômicas e políticas não são tomadas mais no território definido, mas numa espécie de “não lugar” geral e real, que coincide com a lógica Imperial. Se o próprio trabalho social não se organiza mais a partir da perspectiva do local, mas sim numa lógica universal e global de produtividade; as próprias instituições e expressões políticas estatais, soberanas, não dariam mais conta das demandas surgidas de “um novo povo”, ou um “povo ausente” (a Multidão) em meio a um “não lugar” ilimitado, o deserto do real – o Império.
Para ir além, Hardt e Negri propõem uma reflexão e uma re-definição ontológica do próprio ser (e da tão falada subjetividade) e de suas expressões políticas, uma vez que as definições modernas estariam superadas. Assim, busca-se uma analise das características inelimináveis, imanentes, intrínsecas da política, e de sua atual dimensão biopolítica imperial de “produção e reprodução da vida social”. Nesse momento é que os autores constroem a idéia de “incomensurabilidade” dos valores humanos e sociais em meio à globalização e ao Império – em contraposição a “metafísica das medidas da modernidade”, que procura compreender o homem e seu valor enquadadros em medidas cuja existência de limites expressava outro ser social num outro mundo social. Agora, os valores humanos se configurariam “alem da medida” no mundo “fora de medida”; no novo lugar no não-lugar.
Nesse sentido, a construção do Império está ligada à própria crise de soberania. Este seria um primeiro dado concreto. E o surgimento da multidão, ao mesmo tempo, seria um fato social correlato ao erguimento do Império, que só a própria multidão poderia construir e destruir, devido ao seu caráter “geracional”, criativo, e paralelamente comunitário, sociável, miscigenado.
Mas se, por um lado, a multidão hibrida tem essa característica ontológica geracional, produtiva intelectual e linguisticamente; o Império, por outro, também apresenta em suas características fundamentais imanências que não podem ser superadas desde que não seja superado o próprio Império. Assim, a existência do Império é um elemento do seu próprio fim. Para exemplificar isto, os autores remontam à antiguidade clássica para compreender os Impérios antigos, como o Romano, e seus declínios. Na sociedade capitalista pós-moderna biopolítica, um dado concreto da crise da soberania e da crise do próprio Império é a existência global e enraizada da corrupção, que segundo os autores seria uma espécie de substrato cru e sem carcaças da atual fase do desenvolvimento do capitalismo e sua relação com o poder Imperial.
Em síntese: crise de soberania estaria evidente na própria crise dos Estados-nação e na noção de povo; na criação do Império em meio a multidão; e, por fim, na insolvência e na globalização do problema da corrupção capitalista enquanto forma oposta à geração, a produtividade humana e à vida sem limites e para alem dos limites da multidão.
É legal imaginar a ideia de uma multidão no controle da sociedade e a ausência de um império. Mas fica muito difícil de crer que seria possível existir uma consciência coletiva visando um bem estar geral. Com o surgimento das redes sociais, a visualização de uma democracia mais plena se torna mais fácil, ainda que exista um longo caminho a ser percorrido.
ResponderExcluirEduardo A. Ramos
RA: 00101135