segunda-feira, 6 de junho de 2011

A exploração humana à luz das ideias de Karl Marx


        Desde os primórdios da humanidade, ou pelo menos desde o conhecimento da história, a questão da opressão e da exploração está presente de alguma forma nas relações humanas, seja para com a natureza, com outros animais ou até mesmo para com sua própria espécie. Dessa forma, o questionamento acerca tanto das origens da opressão e exploração quanto suas consequências também estão presentes dentre as angustias e anseios humanos em busca da superação de suas contradições.
       Diversos foram os pensadores que se debruçaram sobre tais modos de relacionar-se em sociedade a fim de identificar qual o elo causal entre todas as formas de exploração. Entretanto, é com referências nas ideias e práticas de um pensador específico, Karl Marx, que este texto tentará discorrer acerca das causas e consequências da exploração do homem pelo homem.
       A priori, um parêntese: para compreender como Marx pensava o mundo, é necessário tentar conhecer o mundo no qual Marx pensava; e, portanto, é mister de qualquer analise sobre o mesmo e suas ideias localizar o filósofo alemão histórica e geograficamente. Nasceu no primeiro quarto do século XIX, em 1818, em Treves, província alemã do Reno, num contexto de revolução liberal e reação absolutista, inclusive do império Prussiano. Teve influência de diversos pensadores da época, Hegel e Feuerbach, ou mesmo anteriores, Balzac, Rousseau, Ricardo e Smith. Casou-se com uma mulher de classe social mais abastada, causando impacto social para seu tempo, a qual inclusive largou uma provável vida de luxo para dividir uma vida de dificuldades, luta e amor. Entrou na Universidade de Berlim em 1836 para estudar Direito, mas a História e a Filosofia logo lhe encantaram, fazendo o jovem Marx inflexionar seus estudos e interesses sociais mais nítidos. Ao longo da vida, publicou obras de importância inquestionáveis, a exemplo da Crítica à Economia Política, A Ideologia Alemã, O Manifesto Comunista, A Miséria da Filosofia e O Capital. Sua obra demonstra claro diálogo com a tradição filosófica alemã, com o socialismo utópico francês, alem da economia política clássica inglesa. Teve um grande amigo e companheiro de luta e intelectual com o qual publicou algumas obras, Engels. E morreu aos 65 anos, em 1883. Fecha parênteses.
       Bem como foi supracitado, Marx era leitor de Rousseau; e um ponto central da análise deste ultimo aquele reivindicava – a centralidade da propriedade privada no que diz respeito às causas dos males sociais, em especial a exploração do homem pelo homem. Marx identificava no trabalho (através do qual o ser humano conseguia produzir e re-produzir sua própria espécie e condição humana) o elemento ontológico estruturante das sociedades, enquanto um complexo humano fundante com relação às demais, consequentemente fundados. Assim, a compreensão da estrutura de funcionamento econômica, para Marx, era imprescindível para compreensão dos demais campos sociais – cultura, política, ética, arte, etc. Não à toa a economia clássica inglesa foi tão fundamental para toda sua produção econômico-politico-filosofica.
       A propriedade privada, então, principalmente dos meios de produção da riqueza, era o que dividia os homens (condição de espécie, não de gênero) entre aqueles que as detinham, e aqueles que nada tinham senão sua própria força de trabalho, elementar para o processo de valoração das mercadorias produzidas e, portanto, para circulação ampliada do capital. As diversas mazelas sociais, nas mais diversas dimensões da vida humana, inclusive espiritual, derivariam, pois, dessa contradição entre aqueles que exploram a força de trabalho alheia, e aqueles que nada tem a oferecer senão seu corpo, sendo assim explorado.
      As conseqüências dessa forma de relação humana são inumeras, porém algumas identificáveis: a alienação do trabalhador, através da divisão social no processo produtivo, do próprio resultado de seu tempo de trabalho empregado, muitas vezes não tendo ele chance de (re) conhecer aquilo que por ele é produzido; a apropriação privada da riqueza socialmente produzida, resultando, por conseguinte, em classes sociais antípodas, ao longo da história senhores x escravos, senhores feudais x servos, burgueses x proletários; o surgimento de superestruturas sociais para manutenção das relações de produção e propriedade, como o Estado e toda sua estrutura judírico-regulamentar. A tendência à acumulação e centralização de capital, resultando na transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista, possibilitando o surgimento do imperialismo e suas guerras características, além da reafirmação de outras formas de opressão para a pura e simples manutenção das relações de propriedade, a exemplo da sociedade patriarcal.
      Em que pese a propriedade privada seja elemento central quando trata-se da exploração do homem pelo homem, ela não retém seus efeitos devastadores somente no campo das relações humanas, estendendo seus males inclusive para o meio social no qual essas relações se desenvolvem. Por suposto, a externalidade, conceito marxista, talvez seja o melhor exemplo desta afirmação. Caracteriza-se por levar suas consequências destruidoras para um âmbito com o qual não tem relação necessária, ou pelo menos relação direta e imediata; como no exemplo de uma indústria de tecidos que polui o meio ambiente ao jogar lixo nos rios por não preocupar-se com o meio para o qual a produção de tecidos é necessário – ou existirá algum dia produção de tecidos sem matéria prima, seda, algodão, vindas da natureza para tal?
      Por fim, após uma série de exemplo dos mais variados tipos de como a propriedade privada dos meios de produção e reprodução da vida social são prejudiciais ao todo da sociedade, é necessário a cada dia que passa refletir sobre novas formas de encarar e superar essa contradição. Apontando, sempre, para a necessidade de relacionar qualquer nova pratica social a essa construção teórica, colocando uma praxys revolucionária tão característica nas idéias do filósofo alemão.
Pois, como disse o velho Marx na Miséria da Filosofia, os filósofos já pensaram bastante o mundo, agora se trata de transformá-lo!


4 comentários:

  1. ALUNA: Cecília Garcia Gonçalves
    RA: 00043693

    Agradou-me o comentário, especialmente o último parágrafo; que hoje a noção de servidão, quer seja voluntária ou não, seria inconcebível para o homem moderno.

    Interessante se pensarmos na situação corrente das minorias étnicas que, embora não se possa colocá-las como escravas ou serviçais, dobram seus joelhos às políticas muito similares que encarceraram. Um relato impressionante de como manutenção da paz é imperativa, portanto podendo prover da servidão, é o livro “Enterrem meu Coração na Curva do Rio”. A partir de fragmentos e relatos das diversas tribos indígenas da América do Norte, em época de colonização e expansão, o autor Dee Brown traça o perfil do servo voluntário: O índio que, frente a um inimigo com armamento sofisticado e meios de lhe privar dos artigos de subsistência, concorda com a servidão, que o homem dito civilizado tratou de usar o eufemismo da palavra "coexistência": “Lutaríamos com vocês se tivéssemos rifles e pólvora; mas suas armas são melhores que as nossas (...) estamos abatidos, não temos mais ânimo (...) Façam conosco o que quiserem”, são trechos do livro, falados pelo chefe indígena Cadette.

    Talvez ainda seja nas tribos ou nas minorias étnicas se possa perceber o efeito duradouros da servidão voluntária. Um exemplo são as comercializações dos artigos indígenas. No alto Xingu, as tribos indígenas, desde os primórdios dos tempos, realizam escambos entre si, seus artesanatos única moeda, trocada por alimento e armamento. A pressão econômica do capitalismo, frente a diminuição de terras (que também atende ao sistema de rápido crescimento e propriedade privada) obrigaram os índios a comercializar sua arte, em troca de dinheiro, em troca de alimentos que, antes buscados no seio da natureza, hoje tem de ser comprados.

    O mais interessante, então, a meu ver, é a luta ferrenha que nós homens "civilizados" travamos por nossas partículas de liberdade, enquanto povos inteiros foram escravizados pela servidão voluntária, hoje talvez único modo de vida que conheçam.

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  2. O texto aborda bastante o lado econômico predominante na visão de Marx, o que deu muito mais consistência para a análise da exploração. Dando, assim, espaço para as consequências que não se encaixam no âmbito das relações humanas, algo que é quase que excessivamente discutido dentro desse assunto.
    A introdução que situa o leitor no mundo de Marx foi muito bem colocada, contribuindo para a construção dos argumentos utilizados.
    Gostei muito da conclusão otimista, já que, geralmente, textos que tratam desse assunto finalizam de uma forma muito descrente. Coloca a importância do início da transformação, no entanto, deixa de citar os motivos pelos quais ela ainda não aconteceu.

    É uma análise que se diferencia das outras devido à visão econômica colocada.

    Aluna: Sabrina Haick RA00095414

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  3. Um texto muito bem articulado, apesar do vocabulário de alto nível, o que pode deixar a compreensão um pouco mais difícil, o texto consegue transmitir os efeitos da exploração do homem.
    Os exemplos das diferentes formas de exploração, no ambito histórico, faz com que pensemos na maneira de como o homem é explorado a séculos, e como o dinheiro e o poder são decisivos na relação explorador-explorado. Assim a previsão de Karl Marx sobre os malefícios do capitalismo é comprovada.Com reflexões sobre a economia ele fez voltar meus olhos para um horizonte diferente do comum, e com a proposta de tranformação consegue convencer o leitor.
    Parabéns , gostei muito!

    nome :FERNANDA MENEGUELLI CAPELO
    RA00095393
    turma:jornalismo noturno

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  4. O texto é, de fato, muito esclarecedor. As caracteristicas marxistas colocadas de forma introdutória serviram de base para a compreensão do mesmo nas idéias subssequentes.
    A relação de causa e consequencia da exploração foi muito bem determinada e ilustrada com exemplos plausiveis, provando através de fatos os males provocados pelo capitalismo como no trecho a seguir:

    "A propriedade privada, então, principalmente dos meios de produção da riqueza, era o que dividia os homens (condição de espécie, não de gênero) entre aqueles que as detinham, e aqueles que nada tinham senão sua própria força de trabalho(...)"

    Achei o texto completo e após sua leitura pude ampliar meus conhecimentos acerca das idéias de Karl Marx, justamente por ter sido redigido por um aluno do curso que elucidou sabiamente uma teoria tida como "complexa" por muitos.

    Andreza Spinelli Ballan
    RA00097862

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