quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma máquina chamada poder

            Não enquanto algo que se apropria ou que pertence a uma determinada esfera da estrutura social, o poder existe sob a forma de relações ou práticas das quais ninguém escapa, segundo Foucault. Vinculado erroneamente ao aparelho de Estado enquanto forma de repressão e dominação, o poder, para ele, direciona a vontade no sentido de satisfazer desejos, e isso pode ser notado no próprio funcionamento do sistema capitalista.
            Capaz de controlar o corpo do indivíduo, bem como todas as suas ações, o poder disciplinar aperfeiçoa as capacidades das potencialidades humanas, aumentando a produtividade desse indivíduo enquanto força de trabalho. Economicamente útil, sua capacidade de luta e resistência frente ao exercício do poder se reduz e neutraliza.
            À medida em que essa pessoa passa a atender aos interesses do capital e contribui pela manutenção da sociedade capitalista, a relação de poder estabelecida torna-se estrategicamente fundamental e positiva. Ao manipular, regular e adestrar todo o comportamento humano, a máquina-poder e o instrumento-disciplina irão produzir a individualidade: um indivíduo singular fruto do saber. Assim, buscando garantir o exercício do poder, o Estado, por sua vez, irá apropriar-se desse saber como seu instrumento de dominação.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A exploração humana à luz das ideias de Karl Marx


        Desde os primórdios da humanidade, ou pelo menos desde o conhecimento da história, a questão da opressão e da exploração está presente de alguma forma nas relações humanas, seja para com a natureza, com outros animais ou até mesmo para com sua própria espécie. Dessa forma, o questionamento acerca tanto das origens da opressão e exploração quanto suas consequências também estão presentes dentre as angustias e anseios humanos em busca da superação de suas contradições.
       Diversos foram os pensadores que se debruçaram sobre tais modos de relacionar-se em sociedade a fim de identificar qual o elo causal entre todas as formas de exploração. Entretanto, é com referências nas ideias e práticas de um pensador específico, Karl Marx, que este texto tentará discorrer acerca das causas e consequências da exploração do homem pelo homem.
       A priori, um parêntese: para compreender como Marx pensava o mundo, é necessário tentar conhecer o mundo no qual Marx pensava; e, portanto, é mister de qualquer analise sobre o mesmo e suas ideias localizar o filósofo alemão histórica e geograficamente. Nasceu no primeiro quarto do século XIX, em 1818, em Treves, província alemã do Reno, num contexto de revolução liberal e reação absolutista, inclusive do império Prussiano. Teve influência de diversos pensadores da época, Hegel e Feuerbach, ou mesmo anteriores, Balzac, Rousseau, Ricardo e Smith. Casou-se com uma mulher de classe social mais abastada, causando impacto social para seu tempo, a qual inclusive largou uma provável vida de luxo para dividir uma vida de dificuldades, luta e amor. Entrou na Universidade de Berlim em 1836 para estudar Direito, mas a História e a Filosofia logo lhe encantaram, fazendo o jovem Marx inflexionar seus estudos e interesses sociais mais nítidos. Ao longo da vida, publicou obras de importância inquestionáveis, a exemplo da Crítica à Economia Política, A Ideologia Alemã, O Manifesto Comunista, A Miséria da Filosofia e O Capital. Sua obra demonstra claro diálogo com a tradição filosófica alemã, com o socialismo utópico francês, alem da economia política clássica inglesa. Teve um grande amigo e companheiro de luta e intelectual com o qual publicou algumas obras, Engels. E morreu aos 65 anos, em 1883. Fecha parênteses.
       Bem como foi supracitado, Marx era leitor de Rousseau; e um ponto central da análise deste ultimo aquele reivindicava – a centralidade da propriedade privada no que diz respeito às causas dos males sociais, em especial a exploração do homem pelo homem. Marx identificava no trabalho (através do qual o ser humano conseguia produzir e re-produzir sua própria espécie e condição humana) o elemento ontológico estruturante das sociedades, enquanto um complexo humano fundante com relação às demais, consequentemente fundados. Assim, a compreensão da estrutura de funcionamento econômica, para Marx, era imprescindível para compreensão dos demais campos sociais – cultura, política, ética, arte, etc. Não à toa a economia clássica inglesa foi tão fundamental para toda sua produção econômico-politico-filosofica.
       A propriedade privada, então, principalmente dos meios de produção da riqueza, era o que dividia os homens (condição de espécie, não de gênero) entre aqueles que as detinham, e aqueles que nada tinham senão sua própria força de trabalho, elementar para o processo de valoração das mercadorias produzidas e, portanto, para circulação ampliada do capital. As diversas mazelas sociais, nas mais diversas dimensões da vida humana, inclusive espiritual, derivariam, pois, dessa contradição entre aqueles que exploram a força de trabalho alheia, e aqueles que nada tem a oferecer senão seu corpo, sendo assim explorado.
      As conseqüências dessa forma de relação humana são inumeras, porém algumas identificáveis: a alienação do trabalhador, através da divisão social no processo produtivo, do próprio resultado de seu tempo de trabalho empregado, muitas vezes não tendo ele chance de (re) conhecer aquilo que por ele é produzido; a apropriação privada da riqueza socialmente produzida, resultando, por conseguinte, em classes sociais antípodas, ao longo da história senhores x escravos, senhores feudais x servos, burgueses x proletários; o surgimento de superestruturas sociais para manutenção das relações de produção e propriedade, como o Estado e toda sua estrutura judírico-regulamentar. A tendência à acumulação e centralização de capital, resultando na transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista, possibilitando o surgimento do imperialismo e suas guerras características, além da reafirmação de outras formas de opressão para a pura e simples manutenção das relações de propriedade, a exemplo da sociedade patriarcal.
      Em que pese a propriedade privada seja elemento central quando trata-se da exploração do homem pelo homem, ela não retém seus efeitos devastadores somente no campo das relações humanas, estendendo seus males inclusive para o meio social no qual essas relações se desenvolvem. Por suposto, a externalidade, conceito marxista, talvez seja o melhor exemplo desta afirmação. Caracteriza-se por levar suas consequências destruidoras para um âmbito com o qual não tem relação necessária, ou pelo menos relação direta e imediata; como no exemplo de uma indústria de tecidos que polui o meio ambiente ao jogar lixo nos rios por não preocupar-se com o meio para o qual a produção de tecidos é necessário – ou existirá algum dia produção de tecidos sem matéria prima, seda, algodão, vindas da natureza para tal?
      Por fim, após uma série de exemplo dos mais variados tipos de como a propriedade privada dos meios de produção e reprodução da vida social são prejudiciais ao todo da sociedade, é necessário a cada dia que passa refletir sobre novas formas de encarar e superar essa contradição. Apontando, sempre, para a necessidade de relacionar qualquer nova pratica social a essa construção teórica, colocando uma praxys revolucionária tão característica nas idéias do filósofo alemão.
Pois, como disse o velho Marx na Miséria da Filosofia, os filósofos já pensaram bastante o mundo, agora se trata de transformá-lo!


sábado, 4 de junho de 2011

Servidão Voluntária e Liberdade

            Temos aqui em mãos uma questão: afinal de contas, a servidão voluntária é necessária para podermos viver em sociedade com segurança e paz, ou não? Para tentar responder essa pergunta, precisamos definir quais pressupostos estamos considerando para a partir disso imaginar quais seriam as decorrências. Vamos usar a visão de uma pessoa que já tem sua teoria definida para instigar a análise: o filósofo político do século XVII, Thomas Hobbes.
Para Hobbes, a liberdade é a ausência de oposição; tem-se oposição quando, no estado de natureza, os homens possuem o direito natural (que pressupõe a liberdade irrestritiva de proteger a própria vida – liberdade que não inibe a existência de oposição); a conseqüência é a competição e a sucedente estado de guerra perpétua de todos. Ao renunciar ao seu direito natural e assumir todos os atos do Estado como os próprios, o homem se submete à servidão voluntária e ganha uma vida pacífica, sem oposição, ou seja, a liberdade. Portanto, como pudemos ver, de acordo com Hobbes, não só a servidão voluntária é fundamental para os homens viverem juntos e em paz, mas essa convivência pacífica é a condição de liberdade na existência do homem.
É claro que entre a concepção política de Hobbes e a concepção política generalizada de hoje, há uma grande distância. Esse espaço deve-se ao fato de que nós, nos dias de hoje (de novo, generalizando), não temos a mesma concepção de liberdade; para nós, a liberdade poderia ser definida por uma vida segura e pacífica – mas a partir do momento que o preço a pagar por isso é renunciar a vontade-própria, nos é inconcebível que tal situação pudesse contar como uma condição de liberdade.
Portanto, a servidão voluntária pode ser uma ferramenta útil para se criar uma sociedade pacífica quando se considera a liberdade apenas a ausência de oposição, como Hobbes a considera. Mas não é o caso da nossa sociedade de hoje; com a nossa concepção de liberdade, a de seguir a vontade-própria (dentre a lei), a servidão voluntária não só seria inútil, mas altamente anti-ética, destrutiva, e retrógrada. O que nós necessitaríamos para conseguirmos viver em conjunto com segurança e paz, não que este texto tenha a pretensão de alegar conter essa resposta, seria algo tendencioso ao inverso da servidão voluntária, alguma medida que tivesse como fim, por exemplo, aprofundar o caráter democrático da sociedade, intensificando cada vez mais o poder político individual.