Não há como questionar que a mídia e os veículos de comunicação tem um papel importante na construção social.
A informação, que é um ingrediente fundamental para a formação de posicionamento crítico, é intermediada. Ela passa por diversos canais antes de chegar á seus receptores finais, e portanto, há a chance de que seu conteúdo sofra recortes de sentido.
Estes “recortes” são, segundo Pierre Bourdieu, uma forma formidável de censura acometida pelos jornalistas, que nem sequer se dão conta disto.
Para Bourdieu ,o campo jornalístico é diretamente influenciado e moldado por outros microcosmos, como o político e o econômico, e é esta influência exterior ao jornalismo que faz o que é produzido pelos canais comunicativos ficar preso na intersecção de interesses comuns entre estes campos.
Assim sendo o campo de realidade sobre qual o jornalismo incide é previamente pautado, ou seja, independentemente do conteúdo, uma matéria só surge como relevante à um jornal quando esta é ao mesmo tempo relevante aos outros dois campos de atuação, dando ao jornalismo uma característica de existência permeada, mas própria, capacitando-o a manipular até mesmo os jornalistas, sem que estes percebam.
O que por fim acaba acontecendo é a homogeneização da informação. O fazer jornalístico submetido aos caprichos econômicos provoca uma ascensão dos programas embasados no puro entretenimento. A programação fica delimitada pelos interesses da audiência, para que esta seja cada vez maior, e produtos culturais são feitos à fim de formar os gostos do público e lisongeá-los com a produção de mais e mais programas e matérias com o mesmo formato que os apeteça.
Dentro deste contexto de competição pela fatia de mercado, Bourdieu observa que para acompanhar o fenômeno que é a atividade televisiva, os meios de comunicação escrita, como jornais, tem de escolher o que acham melhor para não perderem seu espaço mercantil: Deixar- se aos modos televisivos, ou seja, resignar-se à produzir notícias de variedades, que enaltecem os aspectos anedóticos do cotidiano e têm como efeito a produção de um vazio político, ou, fazer um produto acentuadamente diferente, quase um outro tipo de mercadoria cultural.
Para Pierre Bourdieu, “o campo jornalístico age, enquanto campo, sobre outros campos. Em outras palavras, um campo ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos.”
A crítica delimita o que é bom ou não, o que faz com que aqueles que desejam ser bons submetam – se à crítica, o jornal decide o que é ou não relevante à sociedade, portanto a sociedade sucumbe às decisões do jornal, fazendo com que toda a produção cultural sinta o peso destas decisões
Do mesmo modo que o jornalismo delimita, ele é delimitado, como observado anteriormente, por outros campos.
Temos no Brasil um exemplo clássico, na época do governo ditatorial a televisão era uma concessão pública, o levou emissoras não mais à busca pela imparcialidade política, mas sim a uma adesão ao governo militar vigente. Por isso o jornalismo da Globo, por exemplo, assumiu um papel de porta-voz oficial do governo federal, sob o pretexto de temer uma forte censura imposta pelo regime militar. Entretanto, hoje em dia após uma queda regime ditatorial um globo anda mantém o mesmo posicionamento editorial, sem assumir sua parcialidade, tomando para si o ideal de objetividade imparcial quando na realidade, o acontece é exatamente o contrario, total parcialidade.
Esta situação exemplifica uma submissão do campo informativo ao campo político, e com isso embasa uma criação de massas com acesso pré -delimitado e editado à informação.
A televisão é , indubitavelmente, o meio de comunicação com maior acesso à massa e, logo, o com maior poder de difusão de informação. Sua matérias propositadamente palatáveis e acomodadas na lógica do entretenimento encaminham uma despolitização do ser humano, tentando acomodá-lo na condição de receptor unilateral.
Em relação à televisão, Giovanni Sartori diz que este progresso tecnológico modifica fundamentalmente a natureza da comunicação, deslocando-a do contexto da palavra para o contexto da imagem.
Para ele, a palavra e sua compreensão é o que faz do homem, homem. A palavra exige uma capacidade de interpretação, no entanto a imagem não necessita de nada além da visão, é pura representação visual.
Em um excerto de seu texto Sartori diz, “a televisão não é um acréscimo; ela é acima de tudo uma substituição, que inverte a relação entre compreender e ver. Até hoje, o mundo e os acontecimentos do mundo nos eram relatados, e o relato( a sua explicação) é quase apenas em função das imagens que aparecem no vídeo.”
A televisão nos introduz em uma era da imagem na qual a capacidade cognitiva humana é restringida desde criança ( vide a videocriança), já que a cognição é, ao olhar de Sartori, um processo que se constitui da seguinte maneira: O indivíduo vê algo, pensa e reflete sobre aquilo e só então entende. A televisão retira a parte da reflexão deste processo e o atrofia para ver, logo, entender.
Dentro desta lógica, a comunicação massiva seria então cada vez ais efetiva e homogeneizadora, já que desde a videocriança, esta esponja humana, as informações e conceitos são absorvidos e pouco refletidos.
Na realidade, caminhando perpendicularmente a Sartori, temos uma crítica que diz que a imagem não atrofia a cognição do ser humano, mas sim, o desafia em outro nível, nível este que não aprendemos em nenhuma escola, o interpretativo. E que na realidade, por sermos desinstruídos à fazer uma leitura imagética, acabamos absorvendo a interpretação única que nos é fornecida.
Como o próprio autor afirma, “a palavra é um símbolo inteiramente resolvido naquilo que significa, naquilo que deixa compreender. E a palavra só deixa compreender naquilo que é compreendido, isto é se conhecemos a língua a que pertence[...]”.
Não há dúvidas de que quando algo é dito ou escrito este algo comunica. Somos perfeitamente capazes de compreender o que algo grafado nos quer dizer, sem necessitarmos de muita interpretação, afora aquela primária relação de ver, pensar e entender, o que mostra que há também a possibilidade de manter –se unilateral e passar informações de cunho manipulado através da escrita, deixando pouco ou nenhum espaço para que se conteste o que está escrito.
O autor fala também, “A imagem, simplesmente vê-se , e para ver basta a visão, basta não sermos cegos. A imagem não se vê em chinês, árabe ou inglês. Repito: simplesmente vê-se.”
Se a imagem é simplesmente única e não se diferencia de grupos étnicos em grupos étnicos, o que explica o fato do japoneses terem , cientificamente comprovado, a visão mais verticalizada do que a visão ocidental, comprovadamente horizontalizada?
Na realidade a imagem exige um tipo de raciocínio crítico tão pouco enfatizado que nos é quase inexistente. O cérebro humano não atrofia através da imagem , o processo é inverso, o nosso atrofiamento para a leitura imagética faz com que nós não sejamos capazes de inferir significados relevantes às imagens, portanto, não sejamos capazes de usufruir delas criticamente.
O que nos leva ao ponto de tangenciamento com Sartori, a cultura de massas e a alienação sintática provocadas pela televisão e pela imagem, ocorrem, e são negativas para a formação de um adulto crítico e interessado.
Não necessariamente por uma falta de conteúdo associado á imagem, mas sim por uma falta de interesse geral, tanto através da escrita quanto da imagem, de formar um indivíduo crítico, político e capaz de aferir opiniões concretar e posicionadas á respeito de uma informação que receba.