quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Massificação, linguagens e meios

Não há como questionar que a mídia e os veículos de comunicação tem um papel importante na construção social.

A informação, que é um ingrediente fundamental para a formação de posicionamento crítico, é intermediada. Ela passa por diversos canais antes de chegar á seus receptores finais, e portanto, há a chance de que seu conteúdo sofra recortes de sentido.

Estes “recortes” são, segundo Pierre Bourdieu, uma forma formidável de censura acometida pelos jornalistas, que nem sequer se dão conta disto.

Para Bourdieu ,o campo jornalístico é diretamente influenciado e moldado por outros microcosmos, como o político e o econômico, e é esta influência exterior ao jornalismo que faz o que é produzido pelos canais comunicativos ficar preso na intersecção de interesses comuns entre estes campos.

Assim sendo o campo de realidade sobre qual o jornalismo incide é previamente pautado, ou seja, independentemente do conteúdo, uma matéria só surge como relevante à um jornal quando esta é ao mesmo tempo relevante aos outros dois campos de atuação, dando ao jornalismo uma característica de existência permeada, mas própria, capacitando-o a manipular até mesmo os jornalistas, sem que estes percebam.

O que por fim acaba acontecendo é a homogeneização da informação. O fazer jornalístico submetido aos caprichos econômicos provoca uma ascensão dos programas embasados no puro entretenimento. A programação fica delimitada pelos interesses da audiência, para que esta seja cada vez maior, e produtos culturais são feitos à fim de formar os gostos do público e lisongeá-los com a produção de mais e mais programas e matérias com o mesmo formato que os apeteça.

Dentro deste contexto de competição pela fatia de mercado, Bourdieu observa que para acompanhar o fenômeno que é a atividade televisiva, os meios de comunicação escrita, como jornais, tem de escolher o que acham melhor para não perderem seu espaço mercantil: Deixar- se aos modos televisivos, ou seja, resignar-se à produzir notícias de variedades, que enaltecem os aspectos anedóticos do cotidiano e têm como efeito a produção de um vazio político, ou, fazer um produto acentuadamente diferente, quase um outro tipo de mercadoria cultural.

Para Pierre Bourdieu, “o campo jornalístico age, enquanto campo, sobre outros campos. Em outras palavras, um campo ele próprio cada vez mais dominado pela lógica comercial, impõe cada vez mais suas limitações aos outros universos.”

A crítica delimita o que é bom ou não, o que faz com que aqueles que desejam ser bons submetam – se à crítica, o jornal decide o que é ou não relevante à sociedade, portanto a sociedade sucumbe às decisões do jornal, fazendo com que toda a produção cultural sinta o peso destas decisões

Do mesmo modo que o jornalismo delimita, ele é delimitado, como observado anteriormente, por outros campos.

Temos no Brasil um exemplo clássico, na época do governo ditatorial a televisão era uma concessão pública, o levou emissoras não mais à busca pela imparcialidade política, mas sim a uma adesão ao governo militar vigente. Por isso o jornalismo da Globo, por exemplo, assumiu um papel de porta-voz oficial do governo federal, sob o pretexto de temer uma forte censura imposta pelo regime militar. Entretanto, hoje em dia após uma queda regime ditatorial um globo anda mantém o mesmo posicionamento editorial, sem assumir sua parcialidade, tomando para si o ideal de objetividade imparcial quando na realidade, o acontece é exatamente o contrario, total parcialidade.

Esta situação exemplifica uma submissão do campo informativo ao campo político, e com isso embasa uma criação de massas com acesso pré -delimitado e editado à informação.

A televisão é , indubitavelmente, o meio de comunicação com maior acesso à massa e, logo, o com maior poder de difusão de informação. Sua matérias propositadamente palatáveis e acomodadas na lógica do entretenimento encaminham uma despolitização do ser humano, tentando acomodá-lo na condição de receptor unilateral.

Em relação à televisão, Giovanni Sartori diz que este progresso tecnológico modifica fundamentalmente a natureza da comunicação, deslocando-a do contexto da palavra para o contexto da imagem.

Para ele, a palavra e sua compreensão é o que faz do homem, homem. A palavra exige uma capacidade de interpretação, no entanto a imagem não necessita de nada além da visão, é pura representação visual.

Em um excerto de seu texto Sartori diz, “a televisão não é um acréscimo; ela é acima de tudo uma substituição, que inverte a relação entre compreender e ver. Até hoje, o mundo e os acontecimentos do mundo nos eram relatados, e o relato( a sua explicação) é quase apenas em função das imagens que aparecem no vídeo.”

A televisão nos introduz em uma era da imagem na qual a capacidade cognitiva humana é restringida desde criança ( vide a videocriança), já que a cognição é, ao olhar de Sartori, um processo que se constitui da seguinte maneira: O indivíduo vê algo, pensa e reflete sobre aquilo e só então entende. A televisão retira a parte da reflexão deste processo e o atrofia para ver, logo, entender.

Dentro desta lógica, a comunicação massiva seria então cada vez ais efetiva e homogeneizadora, já que desde a videocriança, esta esponja humana, as informações e conceitos são absorvidos e pouco refletidos.

Na realidade, caminhando perpendicularmente a Sartori, temos uma crítica que diz que a imagem não atrofia a cognição do ser humano, mas sim, o desafia em outro nível, nível este que não aprendemos em nenhuma escola, o interpretativo. E que na realidade, por sermos desinstruídos à fazer uma leitura imagética, acabamos absorvendo a interpretação única que nos é fornecida.

Como o próprio autor afirma, “a palavra é um símbolo inteiramente resolvido naquilo que significa, naquilo que deixa compreender. E a palavra só deixa compreender naquilo que é compreendido, isto é se conhecemos a língua a que pertence[...]”.

Não há dúvidas de que quando algo é dito ou escrito este algo comunica. Somos perfeitamente capazes de compreender o que algo grafado nos quer dizer, sem necessitarmos de muita interpretação, afora aquela primária relação de ver, pensar e entender, o que mostra que há também a possibilidade de manter –se unilateral e passar informações de cunho manipulado através da escrita, deixando pouco ou nenhum espaço para que se conteste o que está escrito.

O autor fala também, “A imagem, simplesmente vê-se , e para ver basta a visão, basta não sermos cegos. A imagem não se vê em chinês, árabe ou inglês. Repito: simplesmente vê-se.”

Se a imagem é simplesmente única e não se diferencia de grupos étnicos em grupos étnicos, o que explica o fato do japoneses terem , cientificamente comprovado, a visão mais verticalizada do que a visão ocidental, comprovadamente horizontalizada?

Na realidade a imagem exige um tipo de raciocínio crítico tão pouco enfatizado que nos é quase inexistente. O cérebro humano não atrofia através da imagem , o processo é inverso, o nosso atrofiamento para a leitura imagética faz com que nós não sejamos capazes de inferir significados relevantes às imagens, portanto, não sejamos capazes de usufruir delas criticamente.

O que nos leva ao ponto de tangenciamento com Sartori, a cultura de massas e a alienação sintática provocadas pela televisão e pela imagem, ocorrem, e são negativas para a formação de um adulto crítico e interessado.

Não necessariamente por uma falta de conteúdo associado á imagem, mas sim por uma falta de interesse geral, tanto através da escrita quanto da imagem, de formar um indivíduo crítico, político e capaz de aferir opiniões concretar e posicionadas á respeito de uma informação que receba.

A impressão da Multidão na Sociedade, e os avanços que a Internet proporciona

          Ao decorrer da História verificamos diferentes maneiras de resistência ao poder, por mais ditadorial que o Estado fosse. Isto porque os conflitos sociais confrontam-se diretamente com os interesses do "poder imperial", e este, por sua vez, não consegue calar a multidão. É interessante observamos como a resistência/a multidão se torna sujeito político diante da sociedade.

          Atualmente, temos diversas reinvidicações fervendo na sociedade. São elas: Marcha da Maconha, Militantes feministas na luta contra o machismo e em busca da liberdade sobre o seu próprio corpo, gente consciente na lutra contra a homofobia, e etc.

          Acreditamos que o mais expressivo é o Movimento "Ocupa São Paulo" que se opõe ao modelo capitalista e o seu falso discurso sobre "liberdade". Trata-se da multidão contra o regime que a cerca, movimento que teve início no continente europeu entre jovens e o alto índice de desemprego. Além de tudo, temos ainda uma imprensa por trás realizando um forte trabalho de divulgação afirmando que os militantes não passam de vândalos.

         Podemos ir além ao analisarmos os horizontes que a era digital nos permite alcançar, e o papel que a Internet exerce na hora de questionar o sistema vigente. É neste momento que a constituição da multidão alcança uma área ilimitada, sendo possível, inclusive, resistir ao império sem a necessidade de mobilizações em espaços físicos. É o caso, por exemplo, do "Movimento Gota d'Água" contra a construção da Usina de Belo Monte, onde, através da comunicação virtual, artistas da Rede Globo e militantes da ONG "Xingu Vivo" incentivam à sociedade a aderir à causa através de um abaixo-assinado. Em contrapartida o "Movimento Tempestade no Copo d'Água" afirma que os dados apresentados por tais manifestações são superfaturados. Aparentemente, se não levarmos em consideração o apoio de grandes empresas por trás, temos aqui uma foma democrática de expormos a nossa opinião, e que incentivam à população a ir em busca de mais informações e resistir a um projeto do governo.

          Em suma, com o advento da Internet temos uma multidão sem fim que pode buscar e lutar contra o poder de um soberano. A questão da multidão e o papel político que ela assume na sociedade atual, na busca pelos seus direitos e pela igualdade, são de extrema importância. Há diferentes e fortes tentativas de repressão aos conflitos sociais, como o caso da imprensa no movimento "Ocupa São Paulo", entretanto, a resistência prevalece e o "Império" não pode controlar o espaço que tais movimentos conquistam.




quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Império e o Estado Soberano

Em seu texto Império, Hardt e Negri colocam em questão um conceito fundamental para a teoria política moderna: a idéia de soberania e um Estado soberano sejam em suas mediações mais reacionárias, do absolutismo à aristocracia; seja nas mais progressistas, como o republicanismo liberal.
Para fundamentar suas idéias os autores resgatam a formulação pós-moderna de crise e, por conseguinte, de ruptura com os paradigmas da modernidade. Entre estes paradigmas liquefeitos em meio à sociedade pós-moderna, estaria o Estado e suas instituições clássicas. Bem como o conceito de soberania deste sobre um povo ou nação, definindo limites territoriais, físicos ou até metafísicos.
Dessa forma, para compreender a crise da soberania é necessário, à priori, constituir alguns passos – longe de serem definitivos – sobre a construção do Império em meio a esta crise de soberania “limitada” do Estado-nação. Se, nos tempos atuais - “pós-modernos”, nos termos autorais - o centro da economia política e de toda articulação de poder em torno desta não pode ser mais localizada, como na lógica do imperialismo clássico do Estado-nação, e tem nos organismos internais sua expressão máxima. Se as decisões econômicas e políticas não são tomadas mais no território definido, mas numa espécie de “não lugar” geral e real, que coincide com a lógica Imperial. Se o próprio trabalho social não se organiza mais a partir da perspectiva do local, mas sim numa lógica universal e global de produtividade; as próprias instituições e expressões políticas estatais, soberanas, não dariam mais conta das demandas surgidas de “um novo povo”, ou um “povo ausente” (a Multidão) em meio a um “não lugar” ilimitado, o deserto do real – o Império.
Para ir além, Hardt e Negri propõem uma reflexão e uma re-definição ontológica do próprio ser (e da tão falada subjetividade) e de suas expressões políticas, uma vez que as definições modernas estariam superadas. Assim, busca-se uma analise das características inelimináveis, imanentes, intrínsecas da política, e de sua atual dimensão biopolítica imperial de “produção e reprodução da vida social”. Nesse momento é que os autores constroem a idéia de “incomensurabilidade” dos valores humanos e sociais em meio à globalização e ao Império – em contraposição a “metafísica das medidas da modernidade”, que procura compreender o homem e seu valor enquadadros em medidas cuja existência de limites expressava outro ser social num outro mundo social. Agora, os valores humanos se configurariam “alem da medida” no mundo “fora de medida”; no novo lugar no não-lugar.
Nesse sentido, a construção do Império está ligada à própria crise de soberania. Este seria um primeiro dado concreto. E o surgimento da multidão, ao mesmo tempo, seria um fato social correlato ao erguimento do Império, que só a própria multidão poderia  construir e destruir, devido ao seu caráter “geracional”, criativo, e paralelamente comunitário, sociável, miscigenado.
Mas se, por um lado, a multidão hibrida tem essa característica ontológica geracional, produtiva intelectual e linguisticamente; o Império, por outro, também apresenta em suas características fundamentais imanências que não podem ser superadas desde que não seja superado o próprio Império. Assim, a existência do Império é um elemento do seu próprio fim. Para exemplificar isto, os autores remontam à antiguidade clássica para compreender os Impérios antigos, como o Romano, e seus declínios. Na sociedade capitalista pós-moderna biopolítica, um dado concreto da crise da soberania e da crise do próprio Império é a existência global e enraizada da corrupção, que segundo os autores seria uma espécie de substrato cru e sem carcaças da atual fase do desenvolvimento do capitalismo e sua relação com o poder Imperial.
Em síntese: crise de soberania estaria evidente na própria crise dos Estados-nação e na noção de povo; na criação do Império em meio a multidão; e, por fim, na insolvência e na globalização do problema da corrupção capitalista enquanto forma oposta à geração, a produtividade humana e à vida sem limites e para alem dos limites da multidão. 

Agamben, Bios, Zoé e Biopolítica

       Giorgio Agamben, ao analisar os conceitos de Bios, Zoé, vida nua e biopolítica, nos sugere uma homogeinização da forma de vida destituída de política como mecanismo de controle e do controle proveniente da política propriamente dita, que por vezes justifica a falta de liberdade em nome do "bem-estar", da felicidade e da liberdade dos demais. 
       Temos aqui o encontro de duas categorias, que, então, dão origem a um novo conceito que está cada vez mais fincado nas estruturas da sociedade atual; trata-se do pensamento político duplo categorial Zoé-Bios. Ressaltamos a ideia de uma vida diretamente interligada com a política, e, consequentemente, a submissão às vontades e aos decretos do soberano, também estudada e proposta por Carl Schmit, por meio da relação amigo-inimigo, que passam a ser antônimos apenas na gramática. 
        Para tanto, Agamben nos mostra o quão próxima da atualidade se posiciona tal ideia, utilizando, além de embasamento histórico, exemplos contemporâneos. Por exemplo, livre de formas de preconceito, principalmente o antissemitismo, mas tendo em mente a sociedade na esfera política: Temos um estado radicalmente biopolítico no regime totalitário dos nazistas, onde verifica-se a destituição do direito natural da vida em nome da defasada tarefa política de buscar a hereditariedade biológica. 
       Podemos transpor tal cenário para fatos ocorridos recentemente: O assassinato do "terrorista" Bin Laden pelo governo americano, em nome da justiça aos atentados ocorridos em setembro de 2001, levando em consideração que a vítima não teve liberdade sobre a própria vida, nem o direito legitimo ao julgamento prévio. A Zoé e a supremacia norte-americana se sobrepuseram ao direito natural da vida (em nome da suposta felicidade coletiva). 
       É difícil delimitarmos barreiras entre o coletivo e o individual, e, talvez, seja mais difícil ainda identificarmos mecanismos de controle sutilmente colocados no cotidiano social, em nome da segurança e do bem estar de todos. A Declaração do Imposto de Renda e a Nota Fiscal Paulista, por exemplo, surgem como barreiras impostas pelo estado à liberdade individual, ferramentas que legitimam o controle do estado sobre os gastos individuais e auxiliam a certificação do cumprimento dos deveres cívicos, ainda que apresentados como vantajosos aos olhos da sociedade. 
       Em suma, tal análise pode se estender de forma demasiadamente longa se dispostos a estudar cada partícula social. É essencial termos em mente a normatização verificada na prática da Bios e da Zoé como um conceito só, isto é, quando perdemos a liberdade, um direito natural, diante de um suposto sentimento de coletividade.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma máquina chamada poder

            Não enquanto algo que se apropria ou que pertence a uma determinada esfera da estrutura social, o poder existe sob a forma de relações ou práticas das quais ninguém escapa, segundo Foucault. Vinculado erroneamente ao aparelho de Estado enquanto forma de repressão e dominação, o poder, para ele, direciona a vontade no sentido de satisfazer desejos, e isso pode ser notado no próprio funcionamento do sistema capitalista.
            Capaz de controlar o corpo do indivíduo, bem como todas as suas ações, o poder disciplinar aperfeiçoa as capacidades das potencialidades humanas, aumentando a produtividade desse indivíduo enquanto força de trabalho. Economicamente útil, sua capacidade de luta e resistência frente ao exercício do poder se reduz e neutraliza.
            À medida em que essa pessoa passa a atender aos interesses do capital e contribui pela manutenção da sociedade capitalista, a relação de poder estabelecida torna-se estrategicamente fundamental e positiva. Ao manipular, regular e adestrar todo o comportamento humano, a máquina-poder e o instrumento-disciplina irão produzir a individualidade: um indivíduo singular fruto do saber. Assim, buscando garantir o exercício do poder, o Estado, por sua vez, irá apropriar-se desse saber como seu instrumento de dominação.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A exploração humana à luz das ideias de Karl Marx


        Desde os primórdios da humanidade, ou pelo menos desde o conhecimento da história, a questão da opressão e da exploração está presente de alguma forma nas relações humanas, seja para com a natureza, com outros animais ou até mesmo para com sua própria espécie. Dessa forma, o questionamento acerca tanto das origens da opressão e exploração quanto suas consequências também estão presentes dentre as angustias e anseios humanos em busca da superação de suas contradições.
       Diversos foram os pensadores que se debruçaram sobre tais modos de relacionar-se em sociedade a fim de identificar qual o elo causal entre todas as formas de exploração. Entretanto, é com referências nas ideias e práticas de um pensador específico, Karl Marx, que este texto tentará discorrer acerca das causas e consequências da exploração do homem pelo homem.
       A priori, um parêntese: para compreender como Marx pensava o mundo, é necessário tentar conhecer o mundo no qual Marx pensava; e, portanto, é mister de qualquer analise sobre o mesmo e suas ideias localizar o filósofo alemão histórica e geograficamente. Nasceu no primeiro quarto do século XIX, em 1818, em Treves, província alemã do Reno, num contexto de revolução liberal e reação absolutista, inclusive do império Prussiano. Teve influência de diversos pensadores da época, Hegel e Feuerbach, ou mesmo anteriores, Balzac, Rousseau, Ricardo e Smith. Casou-se com uma mulher de classe social mais abastada, causando impacto social para seu tempo, a qual inclusive largou uma provável vida de luxo para dividir uma vida de dificuldades, luta e amor. Entrou na Universidade de Berlim em 1836 para estudar Direito, mas a História e a Filosofia logo lhe encantaram, fazendo o jovem Marx inflexionar seus estudos e interesses sociais mais nítidos. Ao longo da vida, publicou obras de importância inquestionáveis, a exemplo da Crítica à Economia Política, A Ideologia Alemã, O Manifesto Comunista, A Miséria da Filosofia e O Capital. Sua obra demonstra claro diálogo com a tradição filosófica alemã, com o socialismo utópico francês, alem da economia política clássica inglesa. Teve um grande amigo e companheiro de luta e intelectual com o qual publicou algumas obras, Engels. E morreu aos 65 anos, em 1883. Fecha parênteses.
       Bem como foi supracitado, Marx era leitor de Rousseau; e um ponto central da análise deste ultimo aquele reivindicava – a centralidade da propriedade privada no que diz respeito às causas dos males sociais, em especial a exploração do homem pelo homem. Marx identificava no trabalho (através do qual o ser humano conseguia produzir e re-produzir sua própria espécie e condição humana) o elemento ontológico estruturante das sociedades, enquanto um complexo humano fundante com relação às demais, consequentemente fundados. Assim, a compreensão da estrutura de funcionamento econômica, para Marx, era imprescindível para compreensão dos demais campos sociais – cultura, política, ética, arte, etc. Não à toa a economia clássica inglesa foi tão fundamental para toda sua produção econômico-politico-filosofica.
       A propriedade privada, então, principalmente dos meios de produção da riqueza, era o que dividia os homens (condição de espécie, não de gênero) entre aqueles que as detinham, e aqueles que nada tinham senão sua própria força de trabalho, elementar para o processo de valoração das mercadorias produzidas e, portanto, para circulação ampliada do capital. As diversas mazelas sociais, nas mais diversas dimensões da vida humana, inclusive espiritual, derivariam, pois, dessa contradição entre aqueles que exploram a força de trabalho alheia, e aqueles que nada tem a oferecer senão seu corpo, sendo assim explorado.
      As conseqüências dessa forma de relação humana são inumeras, porém algumas identificáveis: a alienação do trabalhador, através da divisão social no processo produtivo, do próprio resultado de seu tempo de trabalho empregado, muitas vezes não tendo ele chance de (re) conhecer aquilo que por ele é produzido; a apropriação privada da riqueza socialmente produzida, resultando, por conseguinte, em classes sociais antípodas, ao longo da história senhores x escravos, senhores feudais x servos, burgueses x proletários; o surgimento de superestruturas sociais para manutenção das relações de produção e propriedade, como o Estado e toda sua estrutura judírico-regulamentar. A tendência à acumulação e centralização de capital, resultando na transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista, possibilitando o surgimento do imperialismo e suas guerras características, além da reafirmação de outras formas de opressão para a pura e simples manutenção das relações de propriedade, a exemplo da sociedade patriarcal.
      Em que pese a propriedade privada seja elemento central quando trata-se da exploração do homem pelo homem, ela não retém seus efeitos devastadores somente no campo das relações humanas, estendendo seus males inclusive para o meio social no qual essas relações se desenvolvem. Por suposto, a externalidade, conceito marxista, talvez seja o melhor exemplo desta afirmação. Caracteriza-se por levar suas consequências destruidoras para um âmbito com o qual não tem relação necessária, ou pelo menos relação direta e imediata; como no exemplo de uma indústria de tecidos que polui o meio ambiente ao jogar lixo nos rios por não preocupar-se com o meio para o qual a produção de tecidos é necessário – ou existirá algum dia produção de tecidos sem matéria prima, seda, algodão, vindas da natureza para tal?
      Por fim, após uma série de exemplo dos mais variados tipos de como a propriedade privada dos meios de produção e reprodução da vida social são prejudiciais ao todo da sociedade, é necessário a cada dia que passa refletir sobre novas formas de encarar e superar essa contradição. Apontando, sempre, para a necessidade de relacionar qualquer nova pratica social a essa construção teórica, colocando uma praxys revolucionária tão característica nas idéias do filósofo alemão.
Pois, como disse o velho Marx na Miséria da Filosofia, os filósofos já pensaram bastante o mundo, agora se trata de transformá-lo!


sábado, 4 de junho de 2011

Servidão Voluntária e Liberdade

            Temos aqui em mãos uma questão: afinal de contas, a servidão voluntária é necessária para podermos viver em sociedade com segurança e paz, ou não? Para tentar responder essa pergunta, precisamos definir quais pressupostos estamos considerando para a partir disso imaginar quais seriam as decorrências. Vamos usar a visão de uma pessoa que já tem sua teoria definida para instigar a análise: o filósofo político do século XVII, Thomas Hobbes.
Para Hobbes, a liberdade é a ausência de oposição; tem-se oposição quando, no estado de natureza, os homens possuem o direito natural (que pressupõe a liberdade irrestritiva de proteger a própria vida – liberdade que não inibe a existência de oposição); a conseqüência é a competição e a sucedente estado de guerra perpétua de todos. Ao renunciar ao seu direito natural e assumir todos os atos do Estado como os próprios, o homem se submete à servidão voluntária e ganha uma vida pacífica, sem oposição, ou seja, a liberdade. Portanto, como pudemos ver, de acordo com Hobbes, não só a servidão voluntária é fundamental para os homens viverem juntos e em paz, mas essa convivência pacífica é a condição de liberdade na existência do homem.
É claro que entre a concepção política de Hobbes e a concepção política generalizada de hoje, há uma grande distância. Esse espaço deve-se ao fato de que nós, nos dias de hoje (de novo, generalizando), não temos a mesma concepção de liberdade; para nós, a liberdade poderia ser definida por uma vida segura e pacífica – mas a partir do momento que o preço a pagar por isso é renunciar a vontade-própria, nos é inconcebível que tal situação pudesse contar como uma condição de liberdade.
Portanto, a servidão voluntária pode ser uma ferramenta útil para se criar uma sociedade pacífica quando se considera a liberdade apenas a ausência de oposição, como Hobbes a considera. Mas não é o caso da nossa sociedade de hoje; com a nossa concepção de liberdade, a de seguir a vontade-própria (dentre a lei), a servidão voluntária não só seria inútil, mas altamente anti-ética, destrutiva, e retrógrada. O que nós necessitaríamos para conseguirmos viver em conjunto com segurança e paz, não que este texto tenha a pretensão de alegar conter essa resposta, seria algo tendencioso ao inverso da servidão voluntária, alguma medida que tivesse como fim, por exemplo, aprofundar o caráter democrático da sociedade, intensificando cada vez mais o poder político individual.